Ovinagre mais caro da história - Parte II

Fonte: Revista Exame
Por Tiago Lethbridge
The Billionaire’s Vinegar
Crown Publishers, 319 págs.
Autor: Benjamin Wallace
“As garrafas de Thomas Jefferson foram o grande exemplo de como as pessoas se tornam sugestionáveis quando o assunto é vinho. Vários ícones do mundo do vinho foram afetados pela fraude”
Havia, porém, uma nuvem de mistério envolvendo Rodenstock e suas degustações. Os garçons nunca deixavam a rolha dos vinhos antigos na mesa. Algumas das raridades vendidas por ele não poderiam ter existido (ele alegava ter encontrado garrafas grandes de Château Pétrus de uma safra em que o castelo não produziu garrafas grandes, por exemplo). As fontes de seus achados nunca eram reveladas. Para aumentar a desconfiança, um de seus amigos, o comerciante William Sokolin, comprou uma das garrafas jeffersonianas e, num episódio bizarro, deixou a garrafa quebrar em seu colo no meio de um jantar. Pareceu de propósito. Recebeu 212 000 dólares de seguro. Seriam Rodenstock e seus amigos uma fraude completa?
Aos poucos, a autenticidade de seus vinhos começou a ser formalmente questionada. Em 1985, logo após o leilão do Château Lafite 1787, a fundação responsável por administrar o museu de Thomas Jefferson lançou dúvidas quanto à sua procedência. Não havia nenhum registro do rótulo entre as posses do estadista americano — e o homem costumava registrar tudo. Embriagados pelos vinhos gratuitos oferecidos por Rodenstock, porém, os especialistas ignoraram as acusações. Até que o alemão Hans-Peter Frericks, um dos compradores das garrafas de Thomas Jefferson, tentou leiloá-las na Sotheby’s, maior concorrente da Christie’s. O especialista da casa de leilões analisou a adega e constatou que diversas garrafas tinham grande probabilidade de ser falsificadas. Numa atitude rara, a Sotheby’s recusou-se a leiloá-las. Intrigado, o vendedor decidiu enviar as garrafas de Thomas Jefferson a um laboratório. A análise da bebida indicou que o vinho era, provavelmente, da década de 60 — mas do século 20, não do 18. A reputação de Rodenstock começava a desmoronar.
O alemão retrucou dizendo que o conteúdo da garrafa analisada havia sido adulterado e que um complô estava sendo orquestrado contra ele. Foi quando William Koch, o bilionário que pagara 500 000 dólares por quatro garrafas jeffersonianas, decidiu investigar seu lote. Intrigado com as especulações acerca da procedência dos vinhos de Rodenstock, Koch contratou um ex-investigador do FBI para tirar a prova. Começou, então, uma busca por provas contra o vendedor alemão. Logo o araponga descobriu que até o nome de Rodenstock era falso. Ele chamava-se, na verdade, Meinard Görke. A prova final da fraude veio quando os investigadores de Koch analisaram a inscrição das iniciais de Thomas Jefferson gravadas na garrafa. Percebeu-se que só poderiam ter sido feitas por um aparelho moderno. Talvez até uma broca de dentista. Com as conclusões da investigação em mãos, Koch moveu um processo contra Rodenstock-Görke e outros comerciantes de vinhos antigos. O caso ainda não foi resolvido, mas alguns dos principais nomes do mundo do vinho saíram chamuscados do episódio. A casa de leilões Christie’s, responsável por vender as garrafas de Thomas Jefferson, foi acusada de conluio com Rodenstock. O mais impressionante é que críticos como a inglesa Jancis Robinson e o americano Robert Parker simplesmente não perceberam que bebiam vinhos adulterados. “As garrafas de Jefferson foram o grande exemplo de como as pessoas se tornam sugestionáveis quando o assunto é vinho”, escreve Wallace. Talvez a grande fraude, portanto, não seja a bebida.
