Fonte: Gazeta Mercantil (23/05/2008)
Se os iniciados no mundo do vinho fazem coro ao afirmar que as taças de alto nível são fundamentais para se ter uma experiência sensorial completa com a bebida, até eles se surpreenderam no Glass Tasting (degustação de copos) ministrado, nesta semana, por Georg Riedel, décima geração da mais famosa produtora de taças de cristal do mundo, a austríaca Riedel, que está no mercado desde 1756.
Riedel, que já desenvolveu mais de 400 coleções diferentes para tornar marcantes as melhores características de vinhos distintos, diz que o formato de uma taça deve dirigir o líquido para a região correta da boca, a fim de ressaltar as sensações que determinado estilo de vinho tem.
Numa dinâmica que mais parecia um divertido quebra-cabeças ou até uma mágica sensorial, Riedel, para quem “dia sem vinho é dia sem sol”, ofereceu, primeiramente, os produtos nas taças em que seus sabores são ressaltados. Depois trocou os vinhos dos copos, para provas cruzadas. O resultado foi surpreendente: a mesma bebida parecia um outro produto.
A explicação é simples e sua teoria tem base mais simples ainda… O receptor sensorial do paladar são as papilas gustativas. Assim, na ponta da língua, sentimos o doce; logo em seguida e ainda à frente, o salgado; mais acima, o ácido, e no fundo da língua, o amargo.
“Desta forma, cada vinho tem características que devem ativar uma diferente combinação de sabores básicos, ajudando a tornar esta bebida única, distinta”, destaca. “Um Borgonha é aveludado e sedoso, delicado e frutado. Deve ser degustado numa taça mais bojuda, de boca mais fechada. Assim, obrigatoriamente o líquido cai na parte frontal da língua. Você sentirá o sabor que o produtor quer ressaltar.”
Em um dos testes que propôs, Riedel serviu um Sauvignon Blanc numa taça alongada e de abertura pequena. “Isso faz com que o vinho se direcione para o centro da língua. Você vai sentir a textura que é característica desta uva, seus sabores plenos”, assegura. O mesmo produto servido em uma com bojo largo e abertura grande fez com que fossem ressaltadas a fruta e a flor da uva, pois o líquido cai nas laterais da boca, onde o degustador sente o ácido e, depois, o amargo. “E aí você não sente o que realmente deve ser ressaltado nesta qualidade de vinho”, esclarece. A conclusão é de que, na taça certa, determinado vinho apresenta-se mais balanceado.
No universo dos apreciadores de vinho há uma unanimidade em relação aos estudos realizados pela família Riedel. Suas taças são apontadas como as mais perfeitas do mundo, e se tornaram peças must have da boa mesa. Nomes como os dos produtores Christian Moueix e Robert Mondavi, e as publicações Wine Advocate, de Robert Parker, Wine Spectator e a Decanter Magazine, ajudaram a Riedel a alcançar seu status.
O motivo da veneração está no modo como as peças são produzidas. O bojo, a haste e a base respeitam medidas milimétricas. “Existe um conceito e um estudo científico para definir os padrões das taças para determinados tipos de uva. Uma da linha Sommelier Maxi, por exemplo, só pode ser confeccionada por profissionais que tenham, pelo menos, 20 anos de experiência, ex-alunos da escola interna da Riedel”, garante o bem-humorado proprietário, que também cria o design delas.
Aval de sommelier
Eduardo Lopes, sommelier da World Wine, mostra que, com o passar dos tempos, artesãos como Riedel foram adaptando seus produtos para uma maior apreciação da bebida. “Hoje, existem coleções criadas exclusivamente para certas safras. Mas aí o consumidor tem de estar disposto a ter uma coleção de taças”, brinca.
Ele observa que, para o consumidor comum, o essencial é que determinados vinhos sejam em taças pelo menos aproximadas para aquele tipo de produto. “Hoje os artesãos estão superatentos a isso”. Não desenvolvem mais, por exemplo, aquelas de boca aberta para champanhe, com desenhos no cristal, em estilo art déco. “Na época em que estavam na moda, havia uma valorização da estética da taça, do glamour de servir uma bebida em uma peça supertrabalhada. Não se levava em conta o gosto. Assim, o champanhe caía nas laterais da boca e se sentia o sabor do salgado. Hoje, com as flutes [modelo fino, alongado] a bebida se mostra superequilibrada, fresca e macia, pois o bebedor inclina a cabeça para a degustação. O líquido vai diretamente para o fundo da língua.”
Georg Riedel conclui que suas exímias peças só funcionam, porém, para vinhos de qualidade, para que a percepção do degustador seja aguçada. “Nossas taças são como amplificadores musicais. Mas a música há de ser boa”, brinca o artesão. “Não fazemos milagres em hipótese alguma.”
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 12)(Alexandre Staut)