04 de julho de 2007 - 15:24
Produção chega a níveis tão elevados que a bebida é usada como desinfetante
Jamil Chade, do Estadão
GENEBRA - Perdendo mercados para os vinhos do Chile, Argentina, Estados Unidos ou Austrália, a União Européia quer rever os subsídios dados a seus produtores e que, nos últimos anos, vêm gerando uma produção além do consumo e criando verdadeiros lagos de vinho. Com mais de 1,3 bilhão de euros em subsídios por ano, a produção européia chega a níveis tão elevados que parte do vinho é usado como combustível em fábricas ou como desinfetantes para não ser simplesmente jogado fora.
A proposta foi apresentada nesta quarta-feira, 4, em Bruxelas e prevê a redução do número de vinhos no continente em 6%. Pelo projeto, 200 mil hectares na Europa deixariam de produzir uvas e seriam compensados em 460 milhões de euros até 2009. Hoje, o continente destina 3,6 milhões de hectares aos vinhedos.
Atualmente, a Europa consome mais da metade do vinho produzido no mundo. Mas as exportações estão estagnadas em 4 bilhões de euros por ano. Além disso, a concorrência vem afetando as vendas dos produtores locais. Em dez anos, a importação de vinho para a Europa aumentou em dez vezes, atingindo 950 milhões de litros em 2004.
Paralelamente a isso, o consumo de vinho na Europa vem caindo. Nos últimos 50 anos, os franceses cortaram pela metade o consumo per capita do produto. Até 2015, uma queda de 9,3% ainda está sendo esperada no mercado francês.
O resultado desse cenário é a perda da posição de liderança no mercado. De um total de vendas de US$ 91 bilhões por ano no mundo, os americanos são responsáveis por US$ 20 bilhões, contra US$ 9 bilhões na França.
Recusa
Apesar da situação considerada como crítica, os produtores europeus se recusam a aceitar a reforma. Portugal, França, Espanha e Itália já alertaram que vão lutar contra a proposta. Para os produtores, o projeto transforma a produção em uma “mera indústria ” e coloca em questão “as tradições européias”. “A proposta é perigosa”, afirmaram as organizações de produtores nos quatro países.
Para tentar acalmar os produtores, a comissária de Agricultura da União Européia, Mariann Fischer Boel, garantiu que o volume dos subsídios não será reduzido. Ela quer, porém, que o dinheiro seja usado de outra forma.
Hoje, pelo menos 500 milhões de euros são usados para compensar os produtores que sequer conseguem vender seus produtos. Em 2006, 10% da produção de vinhos da Europa não conseguiu ser vendida e a taxa pode chegar 15% em três anos se nenhuma reforma for feita. Agora, os europeus querem cortar esses recursos para investir na promoção dos vinicultores competitivos nos mercados externos. “Queremos voltar a ser líderes”, afirmou Fischer Boel.